quarta-feira, 2 de agosto de 2017

"VOCÊ É TUDO, E TUDO É VOCÊ..."

Era um dia como qualquer outro. Lá estava ela indo para o seu serviço, enquanto olhava as paisagens passar pela janela. Olhava as crianças nas calçadas, e sentia saudade de sua infância, das bonecas que há muito deixara para trás. 
Divagava em meios aos pensamentos diversos que nos atingem nessas viagens de ônibus. Se considerava uma pessoa de sorte por poder sentir aquilo que sentia: a paz.

Num determinado momento da viagem, numa parada do coletivo, viu subir um rapaz, bem apessoado. Ela era a única naquele ônibus, àquele horário. Todos os outros assentos estavam livres.

O rapaz fazia uso de fones de ouvido. Escutava algo no seu celular.

Para surpresa da moça, o garoto sentou ao seu lado. Foi educado, pediu licença, mas ela estranhou.
Por quê o menino não procurou outro lugar pra sentar? O ônibus estava vazio. Só ela de passageira.

Ia pensando nessas coisas quando o rapaz perguntou assim, de repente:

- Moça, posso pedir um favor?

A cara de espanto que ela fez foi impossível de disfarçar. 
Meio sem jeito, meneou positivamente com a cabeça.

- Poderia ouvir uma música comigo? Te dou um lado do fone, e a gente ouve!
Por favor... É muito importante pra mim...

- Lógico, óbvio, claro que ela ficou desconcertada. Afinal, um estranho estava ali ao seu lado, e pedia que ela ouvisse o quê ele estava ouvindo.

- É que vou descer já já... - Tentou desvencilhar-se ela.

- Por favor, eu insisto... A música é curtinha...

Não tinha jeito. 
Pensou durante uns dez segundos, olhou para o rapaz, no qual não sentiu maldade, e por isso, aceitou o convite.

Colocou então o fone em sua orelha direita. O rapaz, por sua vez, ficou com seu fone na esquerda dele.

Play apertado, eis que a música inicia. 
Era uma música romântica, mas totalmente fora da situação da qual ela participava no momento.
Teve o ímpeto de perguntar para o menino o por quê de ser justamente aquela música, mas quando voltou seu rosto para o mesmo, percebeu que ele estava com os olhos fechados.

Ficou então sem graça de perguntar.
O quê será que aquela música despertava nele? E por quê justamente ela foi convidada por ele para ouvi-la com ele?

Claro, com o ônibus vazio, ele poderia ter se sentado em qualquer uma das poltronas, mas não. Foi até ela, e fez aquele convite. 

"Você é tudo, e tudo é você..."

Ela já conhecia aquela letra, aquela melodia. A música era antiga. Tristemente romântica, romanticamente triste.

Decidiu então seguir viagem, ouvindo a música ao lado do rapaz, que viajava no coletivo ao lado dela, e em seus pensamentos, através da canção.

Estranho.

Sentiu uma tristeza. Não sabia por quê. 
Na realidade, até pensou saber: Tratava-se do garoto, que também tinha uma fisionomia triste.
Mas começou a pensar que achava isso pelo motivo de a música ter uma melodia triste, e que aquele estranho sentimento era fruto da emoção causada por aquela faixa.

De olhos fechados, o menino não parecia mais estar ali. 
Dois minutos e cinquenta e sete segundos que pareceram uma eternidade.
A promessa do menino revelara-se verdadeira. A música foi curta.

Quando acabou, e o silêncio veio, parecia que ela não ouvia o ronco do motor. Não ouvia mais nada.
Se perdeu no momento do estranho menino.

Ele abriu lentamente seus olhos, e só então ela percebeu que suas mãos eram seguradas pelas dele. 
Recuou então, como quem pede desculpas. Ele deu um leve sorriso, guardou o celular no bolso.

- Muito obrigado! Jamais esquecerei esse momento. Não se esqueça de que, se ainda não é, você ainda será tudo na vida de alguém. Seja feliz!

Sem saber o por quê, seus olhos marejaram. Num sinal de positivo, apenas balançou levemente a cabeça pra cima e pra baixo.

O ônibus parou, e o rapaz se foi.

Nunca mais o viu.
Mas não existe uma só vez em que escute a música, e não se lembre dele.

"Você é tudo, e tudo é você..."

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