sábado, 24 de março de 2012

Sereia

Enfrentava a estrada à sua frente.
Não sabia onde chegaria. Apenas sabia que ia.

Não sabia pra onde ia. Estava perdido. Pensara há tempos que sabia exatamente o lugar ao qual pertencia. Sabia com exatidão o que deveria fazer. Sabia, no passado. Não sabia mais.

Queria gritar, pedir socorro, mas sabia que não ouviria de quem queria um "calma, estou aqui para te ajudar".

Não.

Tudo agora era incerteza. Tudo era motivo de não saber pra onde ir. Por quê tinha de ser assim?!
A vida, àquela altura do campeonato, parecia ser muito injusta com ele.

Olhou então para o terço que balançava no vidro retrovisor.
Pediu perdão à Deus por pensar assim. Muitos miseráveis adorariam ter a vida que ele levava. Não era justo que pensasse assim. 

"Não posso reclamar do que tive, do que tenho, e do que Deus me reserva." - Pensava alto, em meio às canções que ouvia no seu carro ano e modelo 2010.

Pensava nas origens que não deveria ter abandonado. Pensava nas pessoas que mereciam mais a sua atenção. Pensava nas pessoas que não haviam merecido tanto assim.

Mas agora já era tarde. Pelo menos é o que pensava.

Aquela fria tarde de novembro estava mais melancólica do que o costume. Foi então que decidiu ir à praia, lembrando dela! Do perfume dela! Com quem tantas vezes caminhou pela orla, fazendo-a rir com a água e as bolhas das ondas em seus pés!

Aaaaah... Aquele sorriso! Jamais iria se esquecer.

Jamais?!

Ou até a dona de um novo sorriso aparecer em sua vida?!

Já não tinha mais certezas. Tinha se cansado de ter certezas. Tinha ele tantas certezas, que viraram incertezas. Nada parecia que era pra ser do jeito que deveria ter sido.

O quê fazer então?! Ele sabia.

Precisava de um tempo para si mesmo. Precisava de um tempo para entrar dentro de si, e colocar as coisas nos seus devidos lugares. Sentimentos, culpas, arrependimentos, e crescimentos. Sim. Não poderia desperdiçar nada. E ele sabia que iria fazê-lo!

Mas àquele momento, iria se permitir divagar, lembrar, amar!

A maresia que soprava, as gaivotas que esvoaçavam... Tantas e belas recordações...
Desejou então que a imagem sumisse de sua cabeça. Não queria enxergar de forma mágica e encantadora aquela mulher. Linda. Cativante. Simpática. Dona de um lindo sorriso e de olhos profundamente misteriosos. Que ousaram, durante um certo tempo, explorar seus mais profundos segredos.

Sentia falta de que alguém se importasse com ele como ela havia feito.
Só admitiu isso à ele mesmo muito tempo mais tarde.

Um barco! A pescaria! Sorriu!

Lembrou-se do episódio no qual ela, chorando, o espancou até não querer mais!
O motivo era bobo, mas era bonito! 
Ela levou um belo susto! Haviam saído, num daqueles passeios pagos, num pequeno barco de pesca que estava parado no píer.

Teve então a bela idéia de um "passeio romântico" com o balanço das ondas.
Só que uma onda caprichosa quase lança o amor de sua vida ao mar!

E o susto foi tão grande, que a única coisa na qual ela pensou, foi em espancar o dono da idéia de saírem num barco, que quase não oferecia segurança alguma!

Ele ria! E quanto mais apanhava, mais sorria! Isso a irritou profundamente, chegando ao ponto de deixar rolar pelo rosto branco, juvenil e suave, algumas lágrimas de raiva!

Mas tudo passou num terno abraço afetuoso. E riram muito daquilo... Depois de um certo tempo!

Tudo era lembrança agora! E lembranças que ele preferia esquecer. Não que não fossem boas recordações. Muito pelo contrário!

Mas para vestir "aquele número", sem se machucar, deveria se preparar pra isso.
Tinha de entrar na linha! Curar feridas abertas pelos fatos, acontecimentos e tempos.
Não sabia bem como fazê-lo. Não àquele momento. Mas decidira que tentaria!

Perto da praia, havia um pequeno posto. Reabasteceu o tanque do carro, e decidiu andar mais um pouco, sem destino, sem rota, sem caminho.

Decidiu que andaria. Sem saber onde queria chegar, mas iria.
E sabia, que ao final, chegaria a algum lugar.




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