segunda-feira, 16 de julho de 2012

A estrela que não está mais lá

O pai já estava ficando preocupado com o filho.

Notara que havia algumas semanas que o menino, no alto dos seus cinco anos, saía todas as noites para o quintal de casa, e ficava olhando fixamente para o céu, sem nada dizer. 

Parecia que ele estava em êxtase.

Conversou com a esposa, perguntando se o menino havia falado algo para ela sobre essas contemplações. E a mãe disse que ele nada comentou.

Decidiu então que, naquela noite, iria ao encontro do filho, caso a cena se repetisse.


E foi dito e feito.

Lá foi o menino, sentar-se numa toalha de mesa que havia "afanado" sem que a mãe percebesse! Na verdade, ela viu o momento do ato! Mas apenas sorriu, permitindo que o pequenino saísse do interior da casa, com o seu tesouro em mãos!

O pai disse então à mãe:

- Vou lá falar com ele! Não acho normal uma criança passar assim, tanto tempo olhando para o céu, sem falar nada, nem mencionar uma única palavra!

A mãe assentiu, com um gesto de cabeça, em silêncio também.

- E aí, campeão! O que você tá fazendo de bom? - Perguntou ao menino, que virou e encarou a figura paterna.

- Nada, pai! Só olhando as estrelinhas!

- E você gosta de estrelinhas?!

- Sim! É que o pai de um amiguinho disse que elas já morreram... E eu gosto tanto do brilho daquela lá... 

Disse isso, apontando para uma linda estrela brilhante! 
O pai pensou consigo que talvez, aquilo que seu filho apontara na verdade, não se tratava de uma estrela, e sim de um planeta, mas pra quê contrariar uma criança, em sua inocência?!

- Ah, entendi... Então filho... Pode ser que seja verdade!

- Como assim, papai?!

E o pai, com toda a pedagogia com a qual Deus o havia presenteado, explicou da maneira mais simples possível, que a luz das estrelas demora muito tempo até chegar aqui na Terra... Aquele papo científico que ele mesmo duvidava que seu filho fosse assimilar!

- Quer dizer então que aquela estrelinha pode nem existir mais?!

- É sim, filho... Pode ser...

- Notou que a criança havia ficado com os olhos marejados! 
Contemplando o filho, pensou no quê ele se tornaria! Piloto, astronauta, quem sabe?

Respirou fundo, e começou a dizer à criança:

- Sabe, filho, você ainda é muito novinho para entender, mas vou te dizer uma coisa.
Na vida da gente, muita coisa é passageira! Por isso, o papai diz à você: curta todos os momentos de sua vida!
Aproveite cada segundo, e valorize a tudo e a todos. A tudo de bom, e a todas as pessoas de bem!
Nós vamos crescendo, e esquecendo o quanto é bom olharmos para as estrelinhas, como você tem feito todas as noites. Eu mesmo! Não lembro de quando havia sido a última vez na qual fiz isso!

- Eu vi o senhor me olhando outro dia... Achei que queria me xingar...

- Não, filho! - e sorriu! - Eu só estava preocupado por vê-lo quietinho assim! Mas agora o papai entendeu!

E o homem continuou seu discurso.

- Quando aquela estrela vivia, pode ser que muitos de nós ainda nem existíamos, filho!
Ela é beeem velhinha! - Nisso, o menino sorriu.

- O triste, meu querido, é que as vezes, fazemos isso com as pessoas que estão do nosso lado, e não as vemos, não as notamos. Daí, num belo dia, a gente vê que perdeu muito tempo. Sente falta. Repara que ainda existe a luz que elas deixaram dentro da gente... Mas não teremos mais oportunidade de estarmos juntos...

- Como assim, papai?!

- Um diz explico melhor pra você, filho! Imagine que essas estrelinhas, são como as pessoas que você gosta...

- Pode ser você e a mamãe?!

- Sim, meu amor! Claro! Pense sempre grande! Pense sempre alto! Pense que para alcançar essas estrelinhas, você terá de escalar grandes altitudes! Ajude sempre as pessoas que você encontrar pelo caminho! Dê a mão! Dê apoio! E quando vocês alcançarem a estrelinha, serão plenamente felizes!

O pai notara que o menino estava com um semblante mais feliz!

- Puxa papai, que bonito! Pode deixar! Vou ajudar todo mundo no caminho! Vamos chegar na estrelinha juntos!

A essa altura da conversa, o menino já havia esquecido do fato de as estrelas serem mortas, muitas vezes. Mas agora as via como metas!

E foi a vez do pai chorar, lembrando de um dia, no qual seu pai comparou as estrelas às almas daqueles que já se foram! Aqueles que estão  mais pertinho de Deus.

E pensou consigo mesmo:

"Obrigado, pai! Estou na minha escalada, ensinando seu neto a um dia chegar aí!"

O menino notou que o pai estava chorando. Sorriu, e com sua mãozinha delicada, enxugou uma lágrima teimosa que insistia em cair, e disse ao pai:

- Não fica triste não, papai! Eu te ajudo a chegar lá!

"O essencial é invisível aos olhos. Só se vê bem com o coração." (Antoine de Saint-Exupéry)



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