terça-feira, 10 de julho de 2012

Gostaria que você estivesse aqui

Foi então que olhou para ela.
Não apenas olhou, mas enxergou.

Gostaria muito de que ela não estivesse com aquelas lágrimas nos olhos por aquele motivo, mas de nada mais adiantava. Ela a avisou. Falou, dias antes, mas de nada adiantou.

Conversas do tipo "antes que aconteça", "cuidado com isso", "cuidado com aquilo"... Foram incontáveis.

E ela nem coragem tinha mais para encará-lo.


Arriscou colocar a mão em seu queixo, para levantá-lo e assim poder encará-la. Mas viu que ela relutou, e preferiu não insistir.

O silêncio naquela sala era ensurdecedor. Nenhum dos dois arriscava uma frase, uma palavra sequer.
Sim! Conteúdo para discutir, tinham de sobra mas... Valeria a pena começar ali a terceira guerra mundial?! Não... Não valeria. Não valia e não valeu.

Alguém bate à porta.

Ele fala num volume um pouco mais alto que voltem mais tarde. Era a camareira, que vinha para arrumar o quarto.

De repente, um olhar. Aquele tipo de olhar que só os casais apaixonados entendem. Aquele olhar de criança que fez uma arte, e se arrependeu do fundo da alma.

Entre um soluço e outro, uma lágrima e outra, ela diz, quase que sussurrando, apontando para o próprio peito, tocando o coração: "Eu queria que você estivesse aqui..."

Não. Não mais. Agora ele não queria mais estar lá. Ou queria. Na verdade, estava confuso, e já não sabia mais o quê queria de verdade.
Não respondeu a frase. Ficou mais um tempo, contemplando aquela que havia, tempos atrás, a grande responsável por tantas e tantas felicidades. Mas agora era mais um número na estatística.

Deixou-a ali, no meio da sala, aos pés do sofá branco.

Foi até a cozinha, bebeu um copo de água gelada, ainda com o nó na garganta. Havia convencido a si mesmo que não iria chorar. Não! Não daria o gostinho à ela!

Quando voltou, lá estava ela, imóvel como uma estátua.
O quê dizer?! O quê fazer?!

Tomou então a jaqueta (aquela que ela havia tantas vezes vestido, quando a mesma reclamava do frio por não ter levado uma blusa), dirigiu-se à porta, caminhando em silêncio.

Girou a maçaneta. E foi então que, para desfecho daquele diálogo quase que totalmente silencioso, olhou para ela. Que correspondeu o olhar.

E disse, com voz embargada, com a água que havia bebido marejando seus olhos:

"Eu também gostaria que você estivesse aqui..."

E saiu.

Para não mais voltar.


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